Mais Livros Proibidos em debate

Mais Livros Proibidos em debate

19 mar 2014
  • Cultura
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Março e abril voltaram a ser meses de falar sobre Livros Proibidos na Biblioteca Municipal de Oeiras.

‘Admirável Mundo Novo’, de Aldous Huxley, foi a obra protagonista do mês de março, com análise de João Lobo Antunes e moderação do debate a cargo de Ricardo Costa. Este romance publicado em 1932 tornar-se-ia um dos mais extraordinários sucessos literários nas décadas seguintes. O livro descreve uma sociedade futura alicerçada no progresso científico e material. Uma metáfora que retrata a era da técnica, desumanizada, sem lugar para a subjetividade que inclua emoções ou família, velhice, decadência ou morte. A reprodução humana em laboratório e respetiva manipulação genética permite a classificação de uma sociedade dividida em castas. Indivíduos padronizados que se convertem em bens de consumo. Corpos perfeitos, jovens, mediatizados e socialmente integrados, convivendo com proibições generalizadas, entre as quais, a leitura.

Anos mais tarde o sociólogo Jean Baudrillard aprofundará a discussão deste simulacro da sociedade pós-moderna. Um ambiente caracterizado pelo desaparecimento das ideologias, pelo excesso e a rapidez das informações, pela confusão entre o real e o imaginário e pela falta de limites. ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’, uma das mais polémicas obras de José Saramago, foi o livro proibido do mês de abril, numa sessão com Frei Bento Domingues e debate moderado por Nicolau Santos. Galardoado com o Prémio Nobel em 1998, José Saramago sempre alimentou uma relação difícil com a Igreja e os políticos cató- licos fervorosos. A imagem de Jesus Cristo, segundo um Evangelho reinventado e controverso, causa um verdadeiro vendaval em 1992, quando o livro foi publicado. O então subsecretário de Estado da Cultura, António de Sousa Lara, risca o livro da lista de concorrentes ao Prémio Literário Europeu. Considera-o contra o património religioso português. “Censura” e “ato brutal” acusa Saramago. O escritor parte para Lanzarote, nas ilhas Canárias, Espanha, profundamente zangado com quem assistiu impávido e sereno ao gesto de Lara. A reconciliação com Portugal viria mais tarde. Mais de 20 anos depois da primeira edição, este Evangelho é encarado com mais tolerância, mas continua a suscitar controvérsia. Uma visão polémica sobre Jesus Cristo, o Deus-homem. Um homem que viveu há mais dois mil anos atrás e cuja singularidade e marca continua a alimentar leituras diversas e a ser objeto de reflexão. José Saramago também lhe dedicou o seu tempo e atenção. Com a qualidade e o questionamento literário de sempre.