As incríveis descobertas do espólio do Palácio dos Arcos

As incríveis descobertas do espólio do Palácio dos Arcos

21 nov 2014
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Propriedade do terceiro Conde de Arrochela e Castelo de Paiva, José Martinho de Arrochela e Castelo de Paiva, o Palácio dos Arcos, construído no século XV, é conhecido pela sua tonalidade amarela e pelos seus dois torreões ligados por uma varanda sustentada por três arcadas.

O seu último proprietário, guardião de um espólio que foi sendo construído ao longo de seis séculos de história, legou-o ao Município de Oeiras, tendo este ingressado no Arquivo Municipal. Entre os muitos documentos do espólio do Conde de Arrochela e Castelo de Paiva, um destacava-se pelo idioma utilizado na escrita: o italiano.

A forma como terá ido para às mãos da família ainda é desconhecida mas o seu conteúdo é já uma certeza. Trata-se de um relatório diplomático, realizado por Federico Badoer no ano de 1558, relatando a sua viagem à corte espanhola e as conversaçõesque teve, em nome do Senado de Veneza,com o Imperador Carlos V e, após a abdicação deste, com D. Filipe II de Espanha.

Badoer (1519-1593) era um político e diplomata que vinha de uma importante família veneziana. Esta influência permitiu-lhe ascender à carreira diplomática com importantes missões em algumas das cortes mais ilustres da Europa. Após esta última viagem à corte espanhola funda a Accademia Veneziana della Fama (1557). Esta instituição ficou conhecida pelo seu inovador programa editorial e por congregar alguns dos mais importantes pensadores venezianos. Termina em 1561 envolvida num escândalo financeiro que empurrou o seu mentor para a prisão. Anos depois volta a ser preso, em 1568, envolvido novamente num problema diplomático.

O relatório de Badoer, intitulado Relazione delle Clarissimo Federigo Badoer ritornato Ambassadore dall Imperator Carlo Quinto et Filippo Segundo di Spagna suo figlio lo anno 1558, segue um modelo já estabelecido para outras relações enviadas ao Senado de Veneza. Descreviam os monarcas e seus principais conselheiros, bem como a forma de governo, história, economia, tradições e costumes do país que os recebia. Na sua descrição dá particular atenção ao conselho de Carlos V e a um dos seus elementos, o português Rui Gomes da Silva, conde de Melito e príncipe de Eboli e mais tarde um dos Grandes de Espanha. De acordo com o professor Danielle Santarelli, que estudou estas relações, eram amiudamente copiadas, durante os séculos XVI e XVII, e divulgadas pela Europa pelas suas informações e pelo estilo claro e conciso utilizado. As questões mais sensíveis seriam enviadas ao Senado através de despachos confidenciais.

Uma versão muito semelhante desta relação foi publicada no século XIX e está disponível para consulta em htps://archive.org/details/s1relazionidegli03albuoft. 

Recorde-se que o espólio à guarda do Arquivo Municipal inclui documentos manuscritos, impressos, fotográficos, postais, partituras, plantas e estudos geológicos em várias línguas.

Com um período cronológico que se inicia no século XIV e vai até ao século XX, ali foram encontrados documentos de natureza notarial, como escrituras venda de terras e casas ou de casamento, processos de aforamento, testamentos, instrumentos de quitação; cadernos de estudo de matérias escolares; livros de registo de despesas com obras ou imóveis, e outros documentos financeiros, como recibos de despesa ou subscrições de capital ou de aquisição de ações.

Foi já identificada também, por exemplo, uma petição para a construção de um jardim em Paço de Arcos que proporcionasse um espaço de lazer às populações locais, correspondência privada da família, de membros da nobreza ou institucional e outros documentos relacionados com dotes, concursos de dotes, fichas bibliográficas, álbuns de postais de viagens realizadas, processos de penhora ou álbuns fotográficos.