
Ontem, 15 de maio, desapareceu João Abel Manta, uma das mais inteligentes e implacáveis consciências visuais da democracia portuguesa.
Poucos artistas conseguiram olhar o país com tamanha lucidez: o seu traço desmontava vaidades, poderes, ilusões e misérias sem necessidade de excessos. Havia cultura, ironia e uma precisão quase cirúrgica em cada desenho. João Abel Manta não fazia apenas caricatura: fazia pensamento político e social através da imagem.
A sua obra atravessou décadas decisivas da vida portuguesa e ajudou gerações a compreender o país, muitas vezes melhor do que largos discursos ou análises. Num tempo de ruído e superficialidade, manteve sempre uma independência rara e uma inteligência profundamente incómoda.
Para Oeiras, permanece também a honra de ter acolhido, no Palácio Anjos, a sua última grande exposição, em 2024 (no cinquentenário do 25 de abril de 1974). Foi mais do que uma mostra artística: foi um reconhecimento devido a alguém que pertence já à memória cultural e democrática portuguesa.
Morre um artista maior. Fica um olhar que continuará a perseguir Portugal durante muito tempo.
