Nota de Pesar pelo Falecimento de Francisco Simões
O Município de Oeiras presta homenagem à memória de Francisco Simões, uma das figuras maiores da arte portuguesa contemporânea, cuja obra e presença marcaram de forma profunda, sensível e duradoura a vida cultural do concelho e do país.

O Município de Oeiras presta hoje homenagem à memória de Francisco Simões, uma das figuras maiores da arte portuguesa contemporânea, cuja obra e presença marcaram de forma profunda, sensível e duradoura a vida cultural do concelho e do país.
Escultor, pintor, gravador e ilustrador, Francisco Simões construiu um percurso artístico raro pela sua coerência, exigência e humanidade. A sua criação atravessou disciplinas e gerações sem nunca se afastar de uma ideia essencial: a arte como lugar de partilha, de responsabilidade pública e de compromisso com o mundo. A obra nunca foi, para ele, um gesto isolado, mas um modo de estar - atento, rigoroso, generoso.
Desde cedo, a sua formação e experiência internacional - da Escola de Artes Decorativas António Arroio à Academia de Música e Belas Artes da Madeira, e ao Museu do Louvre - revelaram uma maturidade artística pouco comum. Mas foi em Portugal, e de forma muito particular em Oeiras, que a sua visão encontrou um território de diálogo contínuo entre criação, espaço público e comunidade.
Em Oeiras, Francisco Simões foi mais do que um artista convidado: foi um construtor silencioso de ecossistemas culturais. As suas primeiras intervenções na Livraria Galeria Municipal Verney, em estreita proximidade com David Mourão-Ferreira, ajudaram a afirmar um espaço onde palavra, imagem e pensamento crítico se encontravam com naturalidade. Ali se formaram leitores, artistas e cidadãos; ali se ensaiou, em escala íntima, uma ideia de cultura acessível e exigente que viria a ganhar expressão plena no espaço público.
Essa expressão maior materializa-se no Parque dos Poetas, um dos projetos culturais mais singulares do país. Nesse lugar, a escultura deixou de ser mero objeto para se tornar presença: os poetas da língua portuguesa ganharam corpo, tempo e permanência; a paisagem tornou-se leitura; o espaço público transformou-se num território de memória viva. A obra de Francisco Simões no Parque dos Poetas não monumentaliza apenas nomes: oferece silêncio, atenção e pensamento à cidade.
Para além da dimensão artística, permanece a memória do homem: a generosidade intelectual, a discrição do gesto, a escuta atenta, a disponibilidade constante. Francisco Simões colocou sempre o seu saber ao serviço dos outros, mantendo uma relação próxima e respeitosa com instituições, comunidades e públicos. A sua intervenção pedagógica, o seu contributo para a humanização dos espaços educativos e a defesa da arte como instrumento de cidadania fazem parte integrante do seu legado.
O Município de Oeiras reconhece, com gratidão e respeito, a marca indelével que Francisco Simões deixou no território e na sua identidade cultural. A sua obra permanece inscrita no quotidiano, no espaço partilhado, na forma como caminhamos, lemos e habitamos a cidade. E permanece também algo menos visível e talvez mais duradouro: uma ética do cuidado, da atenção e da permanência.
Hoje, Oeiras despede-se de Francisco Simões com o reconhecimento devido a quem soube transformar a arte num gesto de humanidade. A cidade guarda-lhe o nome, a obra e o exemplo, e fá-lo também de forma concreta pois, na passada segunda-feira, foi deliberado em reunião de Câmara atribuir-lhe um topónimo no concelho de Oeiras, assegurando que o seu nome continuará inscrito, de forma viva e permanente, na geografia e na memória coletiva do território.